“Era no Dous de Julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia…
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá…”
(Ode ao Dous de Julho, de Castro Alves)
Desta vez a festa cívica maior da Bahia não teve o seu tradicional desfile, o que não nos impede de reverenciar o 02 de julho de 1823, data em que os portugueses de Madeira de Melo foram definitivamente expulsos do território brasileiro. Originariamente, o desfile, realizado pela primeira vez em 02 de julho de 1824, começou de forma irreverente, uma espécie de protesto. O povo colocou um índio em cima de uma velha canhoneira portuguesa e refez a entrada pelo mesmo caminho usado pelas tropas vencedoras. Comemoração com jeito de protesto, porque o povo sabia muito bem que nada mudara para as classes mais baixas. Findas as escaramuças, as elites locais e portuguesas se reconciliaram, a escravidão continuou, as promessas não foram cumpridas e a vida seguiu seu curso, tudo perfeitamente previsível.
Não resta dúvida de que o Dois de Julho é uma festa tipicamente popular. As pessoas vão às ruas com suas melhores roupas; as crianças, vestidas dos heróis; todos prontos para ver desfilar o carro dos caboclos, os desfiles militares, as fanfarras escolares etc. Noutros tempos, era marcado pela presença de figuras como Cosme de Farias, fundador da Liga Bahiana contra o Analfabetismo, que desfilava distribuindo sua cartilha. Hoje se pode dizer que existem dois desfiles. O do povo é livre, espontâneo, festivo. E o dos políticos é formado por verdadeiras ilhas com cada grupo protegido e isolado por seus próprios seguranças.
Aqui, faço um desvio para prestar homenagem à mulher baiana e, por extensão, a mulher brasileira. Claro que num movimento de características tipicamente populares, em que os agrupamentos não regulares tiveram tanta ou maior importância que as tropas dirigidas pelo mercenário Labatut, inúmeros heróis ficaram no anonimato ou sofreram questionamentos, como foi o caso do corneteiro Lopes. Mas a negra Maria Felipa, mulher de grande beleza e coragem que começa a ser resgatada, merece uma referência pelo inusitado trabalho de resultados espetaculares. Estrategista nata, bem articulada e informada, descobriu que 42 embarcações estavam ancoradas na ilha de Itaparica e se preparavam para uma batalha naval no dia seguinte em Salvador. Liderando um grupo de mulheres, Maria Felipa atraiu os marujos portugueses, embriagou-os e induziu-os a tirar as roupas. Bêbados e nus, cerca de 60 homens foram surpreendidos por uma bem-aplicada surra de cansanção. Na sequência, os barcos foram queimados. Surra de cansanção para quem, excitado, esperava uma noite de amor é dose!
Por essas e outras é que tanto admiro e respeito Maria Felipa. Só mesmo mulheres para criar e executar um plano desses. É. É. Só de pensar, sinto a pele coçar… Ah, as mulheres!
Alcir Santos





4 comentários em “Uma História do Dois de Julho – Por Alcir Santos”
Parabéns!! Muito bem narrado e de fundamental importância para o nosso conhecimento sobre a nossa propria história.
Excelente meu amigo! Uma narrativa primorosa e sem floreios.
Parabenizo o escrotor,Alcir Santos,pelo belíssimo texto,com informações verdadeiras e bem humoradas.
O verdadeiro significado do protesto inicial, hoje poucos conhecem, infelizmente. Como também o que foi relatado por você, a exemplo de Cosme de Farias, Labatut e da engenhosidade feminina e Viva Maria Filipa.
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