Por mais que a gente seja preparado para uma perda, nunca escapa do sofrimento. O meu amigo, o psicanalista Ariosto Mota Moreno, companheiro de muito estudo de psicanálise e de cafés, uma semana antes de morrer, o mesmo me falou algo que nunca esqueço: Conrado eu não passo deste ano. Dito e certo, ele morreu na semana seguinte. Veio em mim um profundo sentimento de perda com a sua morte. Era muito meu amigo e me analisei com ele por mais de dez anos. Depois, ficamos nos encontrando para leitura dos meus artigos que enviava para o jornal. Eu gostava de debater com o amigo os meus trabalhos antes de publicar. Nós sentávamos no café e eu iniciava a leitura do texto. Quando terminava de ler o texto, discutíamos acerca do tema.

Pois é, amigo é para nos ouvir e nos dar atenção. Mota Moreno era um amigo inteligente e atencioso. Depois da sua morte aos 81 anos, fiquei muito sentido. Na Quarta-feira era o dia, que nós nos encontrávamos. Optamos em seguir a tradição das Quartas-feiras Psicológicas, de Sigmund Freud e seu grupo de Viena. Sendo que Freud realizava a reunião de estudo pela noite, a partir das 19 horas. Todas as demais Associações de Psicanálise do mundo iniciavam neste horário e dia. Eu e Mota Moreno fazíamos a reunião pela manhã.
Parece-me que ele já sabia que iria morrer. Resolveu doar para mim todas suas coleções de psicanálise. Foram muitos livros da área, onde os mantenho até hoje para possíveis pesquisas. Ainda sou amante dos livros.
A gente perde alguém e o sofrimento da perda um dia vai embora. Mas, a gente nunca esquece quem amou e admirou. Pode ser um amigo, um irmão, uma companheira, um pai. A lembrança um dia baterá na nossa memória e comentamos com alguém. O bom é quando nós temos com quem compartilhar.





