Por Alcir Santos
Dificilmente algum brasileiro com mais de sessenta anos desconhece a figura emblemática de Carlos Zéfiro. Afinal, de alguma forma este cidadão contribuiu para a formação e/ou aprimoramento da atividade sexual dos seus inumeráveis leitores, adolescentes na sua maioria, também cúmplices do autor já que protegiam e guardavam os “catecismos”, preservando-os e, até, evitando que caíssem em mãos de membros do aparelho repressor da ditadura militar. A questão é que sua identidade era totalmente desconhecida. Só veio a ser revelada, por Juca Kfouri, na edição de novembro de 1991 da revista Playboy. Em boa hora, a novel Editora Noir publica, de Gonçalo Júnior, uma biografia, intitulada “O DEUS DA SACANAGEM – A vida e o tempo de Carlos Zéfiro.”
Com a matéria da Playboy o Brasil ficou sabendo que um pacato cidadão, chefe de seção aposentado do Departamento de Imigração do Ministério do Trabalho, Alcides Aguiar Caminha, era o nome por trás do mito que, segundo Ruy Castro, “teve toda sua obra lida com as mãos.” Melhor ainda, a partir da revelação, os leitores se deram conta de que um dos mais emblemáticos sambas já produzidos, “A Flor e o Espinho”, de Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito, tinha, como os próprios discos indicavam, mais um parceiro, Alcides Caminha. Pois é! Além de ser Carlos Zéfiro, Caminha pode ter sido o autor dos imortais “Tire seu sorriso do caminho que quero passar com a minha dor.”
Pois bem! Gonçalo Júnior conseguiu produzir uma biografia de qualidade, contextualizando os “catecismos” no momento histórico que se vivia aqui e lá fora, inclusive apontando curiosidades do tipo “A pornografia, por exemplo, tão combatida na União Soviética como uma ferramenta do capitalismo ‘decadente’, tornou-se, no discurso da ditadura militar brasileira, instrumento de destruição da família pelos comunistas. Num país de quase totalidade católica como era o Brasil, a guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética não tardou a espalhar a ideia de que, por trás da revolução sexual que começava, estava o movimento comunista internacional.” Será que dá para rir? Ou para chorar? Afinal, em algum momento os extremos se tocam…
Uma questão interessante, das muitas suscitadas pelo autor, diz respeito a alguns posicionamentos de Zéfiro ante a questão. Seus “catecismos” só contemplam o sexo consensual, nada de violência; a história narrada em cada um deles é tão ou mais atraente que os desenhos propriamente ditos e apresentam sempre um final feliz. Há, nos “catecismos”, um certo ar de lirismo a par de uma linguagem escorreita, isenta de palavrões. Assim, como quer o autor, Carlos Zéfiro teve também esse lado de orientador sexual. Numa época de muita repressão e de sexo como meio de reprodução, ele propunha, e ensinava (?!) o sexo como forma de prazer pelo prazer.
Portanto, leitura imperdível para quem foi discípulo do mestre Zéfiro e para os que nunca souberam da sua existência.





1 comentário em “O DEUS DA SACANAGEM – A Vida e o Tempo de Carlos Zéfiro”
Considero Alcir Santos um grande cronista, um texto educado e firme, direto. Muito boa aquisição entre os articulistas do Ei, Táxi.
Comentários encerrados.