Evidente que esse título aí não passa de um slogan, fruto da imaginação de algum desses marqueteiros que pululam por aí. No fim uma frase que soa retumbante, mas que não faz maior sentido.
Lembram-se de “Brasil: ame-o ou deixe-o”, “Pátria de todos”, “Cinquenta anos em cinco”, “Pátria educadora”, “País que vai pra frente”, “Brasil acima de tudo” e outras tantas do mesmo gênero? Ao fim e ao cabo, frases sonoras, mas desprovidas de qualquer sentido. Soam de forma retumbante mas nada dizem.
Como se falar em pátria de todos num país em que a maioria da população não tem sequer perspectiva do pão de amanhã? E aí entra o dístico que dá título à matéria. Quem conhece e quem vive – ou viveu – na Bahia, percorreu seus grotões, viu de perto a miséria, plantas esturricadas, falta de água, animais sedentos, famintos, caídos, ossos perfurando a pele, crianças esquálidas, adultos curvados, olhos fundos, sabe perfeitamente que não há do que se orgulhar.
E que dizer das áreas periféricas de Salvador e das demais cidades? Portanto, criar um slogan não é difícil. A complicação está em propiciar um mínimo de dignidade para cada uma dessas pessoas que formam o exército dos invisíveis, que muitas vezes nem têm noção do que é ser baiano, carioca ou o que seja. Simplesmente seres humanos, mas sem quaisquer perspectivas na vida. Sem ter do que se orgulhar, ou, até mesmo, com o que sonhar.
O indivíduo é filho do local onde vive, tira seu sustento e mantem o amor próprio. Do lugar que ofereça perspectivas aos seus filhos. O resto pouco importa. Hinos, bandeiras, escudos são meras ficções que por si sós não asseguram a ninguém comida, escola, trabalho, dignidade. Portanto, de nada valem os símbolos de onde se esteja vivendo; importa é ter um mínimo de dignidade preservado.
Pois bem, até aqui o artigo tem certo cunho de desesperança. Não poderia ser de outra forma ante a realidade que vivenciamos. Entretanto, há um fato novo que afasta a incredulidade e a descrença – e que merece ser aplaudido de pé ao criar um fugaz orgulho de ser baiano. Refiro-me à postura de homens verdadeiramente públicos, adotada pelo Governador do Estado e pelo Prefeito da Capital. Num raríssimo exemplo de unidade e coerência, os dois, antagonistas históricos, deram-se as mãos e, ante a inércia e descaso das autoridades federais, trabalham unidos para que o Estado da Bahia consiga atravessar, com o mínimo de sequelas, esse sombrio tempo de pandemia. Merecem, sim, nossa admiração e respeito.
Alcir Santos
Aposentado




