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2022 – Por Antônio Carlos Aquino de Oliveira

522 anos que o Brasil foi invadido e começou a ser explorado, saqueado. 522 anos que os europeus começaram a miscigenação com os índios nativos.

483 anos da introdução violenta de negros no Brasil e o começo de sua miscigenação com europeus chegados e índios que aqui estavam.

134 anos do início do processo de libertação dos negros, de outras nacionalidades, vários tribos e culturas, involuntariamente e vergonhosamente imigrados.

Se considerarmos que uma geração dura 25 anos, teremos mais ou menos 21 gerações mestiçadas de europeus e índios neste país continente. Temos cerca de 19 gerações de miscigenados, acrescentando negros nessa mistura maravilhosa de raças, sangues, cores de peles e características físicas.

Se temos registros de imigração alemã de 1824, temos 198 anos decorridos desse povo também dando sua colaboração ao caldo cultural que este país veio a ser e é.

Em 1875, há 147 anos idos, chegaram os italianos a estas bandas e 6 gerações deles já entraram no samba sem ritmo da formação de um novo povo, único, diferente, tão desrespeitado por ser tão pouco assumido, tão dependente, por ter imensa dificuldade de libertar-se da memória colonial, escravista.

A história registra que após a visita de Dom Pedro II ao Líbano, pelos idos de 1880, o Brasil começou a receber migrantes sírios e libaneses. Assim, no liquidificador da formação de uma nova raça, um novo povo, há 141 anos, 6 gerações, o kibe entrou no vatapá, misturando e incluindo novas culturas, tradições, hábitos e costumes.

Se os asiáticos começaram a chegar aqui em 1908, já se vão 114 anos de sua presença na Terra Brasilis, colocando mais tempero na mistura fantástica já existente de índios com europeus, árabes e africanos.

Não se trata apenas de mistura de sêmen e óvulos diferentes, mas de cultura, culinária, temperos, músicas, danças, artes, literaturas, hábitos e costumes, alguns preservados, outros adaptados e novos criados. Todos se adaptaram a tudo, conviveram e convivem em uma incrível e harmoniosa desarmonia, na mais organizada das desorganizações. Benditas heranças.

Assim sendo, é esse país formado e deformado por uma gente diferente, especial, única, fantasticamente definida e descrita pelo mestre Darcy Ribeiro. O povo brasileiro é único, não é índio, europeu, africano, alemão, árabe ou asiático. Incapazes de preservar a cultura e o patrimônio acumulado em tão pouco tempo, incompetentes no respeito à história e a memória, sobrevivem entre nós racistas em pleno século XXI. Oportunistas de todos os matizes e formações graçam e vicejam a explorar os ignorantes e inocentes com suas religiões e ideologias, com suas inescrupulosas conveniências na lógica de dominação e ocupação de poder.  

O modelo de Estado e de usurpadores dos bens comuns (governantes e políticos) permanecem intocados, ajustados, adaptados, mas sem perder a essência. A canalha e a camarinha mantêm as mesmas práticas de saque aqui chegadas há 522 anos, devidamente modernizadas, porém mais estúpidas que nunca. Maldita herança.

2022 abre um tempo comum, igual, sem grandes novidades, sem perspectivas de mudanças. Os trabalhadores continuam trabalhando, os vagabundos vagabundando. Os ladrões de todas as ordens estão bem, impunes ou imunes, tranquilos. Os contribuintes continuam sustentando os seus algozes e bancando seus próprios sofrimentos. Os eleitores continuam acreditando em pessoas e discursos, cegos e insensíveis ao sistema que os oprime e ao modelo que os mata. Somos um povo inédito, pobre e carente, contraditoriamente riquíssimo. Somos uma gente livre que não sabe bem o que é liberdade, independência, autonomia ou soberania.

Jovens têm direito a erros, a tentativas e novas tentativas. Assim seguimos nós, com horizonte pela frente, mas com imensas e desnecessárias cruzes nas costas. Dos nossos antepassados precisamos das boas lições e dos bons ensinamentos, não dos seus pecados. Da história precisamos tirar os melhores aprendizados, as verdadeiras lições. Ninguém se livra dos males do passado repetindo-os. Ninguém se livra do peso carregando-o. Não existe liberdade nas pessoas que estão cegamente presas a credos, ideologias, senhores e donos.

Os índios, os europeus, os africanos, os árabes e asiáticos formaram uma gente especial, fantástica, que precisa descobrir toda a sua beleza, conhecer e explorar todo o seu potencial, livre de seus donos e colonos, de seus falsos profetas, de seus piores irmãos. É preciso brincar com os números, com todos os números, com as datas e com o passado para poder falar sério e pensar livre nos dias de hoje.

Quem fomos é muito importante; quem somos é importantíssimo; quem seremos, um desafio que não pode prescindir de verdade, honestidade, disciplina, coragem, competência, conhecimento, respeito.

Antônio Carlos Aquino de Oliveira, Colunista, Falando Sério

 

 

 

 

Antônio Carlos Aquino de Oliveira

Administrador, Consultor, Palestrante e Empresário do setor de publicidade

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