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Torto Arado – Um Livro Imperdível – Por Alcir Santos

Itamar Vieira Junior justifica, com este livro, todos os prêmios e homenagens que recebeu. Não é uma leitura amena nem fácil, mas vale cada palavra, cada frase, cada situação criada e narrada de forma impecável. Tudo isso porque o autor trata de um país chamado Brasil, muito pouco conhecido pelos que nele habitam, principalmente os dos chamados “grandes centros”.

Chamou-me a atenção, logo de saída, o fato de que persistem, aqui no nosso meio rural, resquícios do feudalismo, o sistema sócio econômico que vigorou na Europa Medieval (séculos V a XV). Os servos da gleba se distinguiam, basicamente, dos escravos, porque não eram propriedade de ninguém. Em tese, trabalhadores livres para prestarem serviços onde e como quisessem. Em tese.

Neste livro o autor registra fatos que nos remetem ao medievo. Vejamos. Com a “abolição” os escravos foram libertos, mas desprovidos de quaisquer meios de sobrevivência tiveram de se submeter ao trabalho, sem remuneração, prestado aos seus antigos donos e/ou descendentes. Espoliados, lhes permitiam um lugar para construir sua tapera, mas não poderia ser de alvenaria, dada a durabilidade e sim de barro porque aí as chuvas e os ventos se encarregariam de destruir no curto prazo. Além disso, podiam, utilizando o pequeno espaço do quintal, criar animais de pequeno porte e plantar seus próprios alimentos, feijão, mandioca, batata doce e algumas fruteiras. Esse “direito” não impedia que o dono ou seu gerente se apropriassem do pouco que produziam para sua alimentação e dos filhos. A condição para cuidar desse minúsculo pedaço de terra era dedicar todo o dia, em regime de doze horas ou mais, a serviço do dono, trabalhando nos cultivares de larga escala, inclusive pecuária. Portanto, uma aula inigualável sob a “abolição” e que se estende pelas páginas do livro, ainda que de forma sub-reptícia, inclusive nos eventos mais dramáticos. E aqui deixo o testemunho de quem conhece os grotões e sabe que Itamar “conta o causo como o causo foi”, na feliz expressão nordestina.

Um detalhe notável é que o autor trabalha com um grande número de personagens, não só os humanos como também os de outros mundos, os “encantados” de Donana, Salu e, principalmente, os de Zeca Chapéu Grande insuperável curador de corpos e almas, respeitado por todos por suas práticas místicas. E ainda conseguia tempo e meios para atuar como líder de trabalhadores e intermediário/apaziguador entre eles e os donos da terra.

Com a miríade de personagens e situações, se cruzando a todo o momento, o leitor tem de redobrar a atenção para não se perder, mas o autor em nenhum momento perde o prumo. Bom de verdade.

Outro aspecto bem explorado é o do poder das mulheres, ainda que, eventualmente, vítimas de violência – essa mácula que enodoa a sociedade brasileira, independente do estamento social – elas assumem uma posição de destaque, pela força, pela capacidade de decisão, pela coesão e até pela prática de um homicídio concebido com muito engenho e arte, crime que acabaria por mudar o rumo das vidas dos moradores de Água Negra. A partir dele as coisas tomam um novo rumo e há uma melhoria na qualidade de vida. Já se pode ter casa de alvenaria e até mandar filho para cursar universidade. Verdade. Nem todo crime é nefasto. Afinal há males que vem para o bem.

Outro aspecto do texto que, entendo, precisa ser destacado, é a espécie de lirismo de que o autor se utiliza, com grande talento, talvez para tornar mais palatável um tema por si só espinhoso e, muitas vezes, de uma brutalidade insana. Portanto, tratemos de festejar o escritor que surge e se destaca pela qualidade do texto e pela temática escolhida. Torço para que as “entidades” de Zeca Chapéu Grande não o deixem fraquejar e o sustentem na elaboração de novos e criativos textos.

Para finalizar dois trechos que evidenciam a qualidade do livro:

“…Por todo o resto parecia ter mais dez anos. Aquele tempo parecia ter passado com violência para ela, agora mãe de um menino. Pude ver seus seios despontarem da roupa que vestia, cheios, caídos de amamentar Inácio. Mas isso nada significava para nós mulheres da roça. Éramos preparadas desde cedo para gerar novos trabalhadores para os senhores, fosse para as nossas terras de morada ou qualquer outro lugar onde precisassem…”.

“…Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. Não poderiam arriscar, fingindo que nada mudou, porque os homens da lei poderiam criar caso. Passaram a lembrar para seus trabalhadores como eram bons, porque davam abrigo aos pretos sem casa, que andavam de terra em terra procurando onde morar. Como eram bons porque não havia mais chicote para castigar o povo”.

Alcir Santos

Aposentado

[email protected]

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