Por Antonio Carlos Aquino de Oliveira
O comentário que ouvi do taxista, diante de uma imprudência cometida por um motociclista à frente do seu carro, me motivou a escrever este artigo, mesmo sem ser especialista no assunto: “Moço, morrem dez motoqueiros por dia, mas se não fosse a mão de Deus, seriam cem.”
Conversamos durante o trajeto sobre o assunto, enquanto mostrávamos um ao outro os exemplos que não paravam de acontecer. Contei a ele da minha relação com a Abramet – Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, dos números do Programa Vida no Trânsito e minha atenção cada vez maior com o tema, para mim, banalizado, relegado e irresponsavelmente conduzido pela sociedade, pelos políticos e governantes (há boas exceções).
Quero começar meu comentário apontando, a meu ver, o erro de origem: educar e formar motoristas e motociclistas é muito diferente de simplesmente habilitá-los, dar-lhes permissões para dirigir. Ensinar apenas aulas meramente técnicas, forma, mas não educa, não civiliza. Daí a explicação para o crescimento das mortes de motociclistas causadas principalmente por procedimento de risco dos próprios condutores, como andar nos chamados corredores das vias, consumo de álcool e drogas, excesso de velocidade, falta de uso de equipamentos de segurança, roupas e calçados inadequados para o veículo e, por incrível que possa parecer, uso de celular na direção de motos.
Sobre uma motocicleta as chances de um acidente fatal são vinte vezes maiores do que numa colisão de automóvel. Esse número sobe para sessenta vezes, se o motociclista não estiver usando o capacete e os itens obrigatórios de segurança previstos nas leis.
Meus amigos da Abramet me dizem que os serviços de resgate nas ruas, os atendimentos de emergência e as unidades de terapia intensiva estão sendo majoritariamente ocupados pelas vítimas de acidentes envolvendo motociclistas, sem contar os custos e prejuízos astronômicos com tamanhas insanidades. Vítimas, ou atores? Inocentes, ou culpados?
A Abramet e o Denatran divulgaram que, em 2011, aconteceram 72,4 mil internações de vítimas de acidentes de trânsito, sendo 35,7 mil por acidentes com motocicletas, ou seja, quase a metade. Isso não alarma ninguém? É uma catástrofe! A imprudência e a irresponsabilidade no trânsito estão matando nossas crianças, jovens, amigos e irmãos!
Homens jovens, entre 19 e 25 anos são os que mais morrem em acidentes com motocicletas. Quem faz a conta desse prejuízo? Quem põe a mão na consciência para avaliar as consequências dessa realidade, dessa guerra, para o presente e o futuro do país. Milhões de pessoas perdem a vida em acidentes de trânsito, mas esse tipo de “barbaridade” não recebe a mesma atenção dos políticos e da imprensa quando comparamos com os desastres de avião. Essa violência está tão banalizada pela sociedade e autoridades que as pessoas parecem acreditar que mortes em acidentes de trânsito são parte da rotina delas, uma situação inevitável – mas não é, e não precisa ser.
Um motorista educado e habilitado não sofre punições, não reclama de radar e semáforo, normalmente não mata e não morre. Entretanto, motoristas meramente formados e habilitados, sem a educação necessária, precisam ser punidos e obrigados a obedecer aos limites de velocidade e sinalizações, a respeitar espaços de pedestres e ciclistas, a usar cinto e equipamentos de segurança, a passar pelos testes de álcool e drogas. Não é normal e comum o motorista que respeita as leis de trânsito ser multado.
É preciso rever totalmente o papel e a operação dos órgãos de trânsito, torná-los profissionais, com técnicos imunes às influências políticas, estruturas de Estado e não de governos. É preciso educar, treinar, avaliar e formar motoristas seguros, capazes e competentes para o desafio da convivência harmônica e pacífica nas ruas.
É preciso incluir crianças e jovens em idade escolar nos cursos e programas de treinamento de motoristas, para que aprendam noções de trânsito, tráfego, segurança, primeiros socorros e legislação de forma minuciosa, qualificada, supervisionada, com aulas teóricas e práticas.
A Organização Mundial da Saúde sugere que todas as cidades do mundo regulamentem as velocidades máximas a 50 km/h nas suas áreas urbanas e a 30 km/h nas áreas residenciais ou com grande circulação de pessoas. Considerando os números de mortes no trânsito no Brasil, faz todo sentido.
Antônio Carlos Aquino de Oliveira
Administrador – Consultor – Empresário





