Por Alcir Santos
Caminhando por salas e corredores do belo Museu Nacional da Colômbia, em Bogotá, acabei atraído pela “Batalla de Boyacá”, tela de Martín Tovar y Tovar, pintada em Paris, em 1890, 71 anos depois da batalha de 07 de agosto de 1819, que praticamente decidiu a independência do país vizinho. Observando o quadro constatei a incrível semelhança, na sua representação, com “O Grito do Ipiranga” de Pedro Américo, concluído em 1888, 66 anos após o 7 de setembro de 1822. Intrigado, tratei de buscar alguma explicação.
Para começar, surge uma outra tela na história, “1807, Friedland”, aquarela pintada em 1875 por Ernest Meissonier, que mostra Bonaparte conclamando suas tropas para aquela batalha. Críticos açodados acusaram o pintor paraibano de plágio já que a sua obra é mais nova treze anos. Em sua defesa, historiadores e críticos de arte esclareceram que a semelhança entre os quadros decorria não da imitação, mas de um estilo adotado por artistas do século XIX como forma de registrar e enaltecer fatos históricos. Tanto assim que o francês escreveu ao primeiro adquirente do quadro: “Eu não queria pintar uma batalha, mas Napoleão no zênite da sua glória.” Encontrada a explicação, segui em frente.
Afastada a hipótese de plágio, importa destacar que o artista não está obrigado, salvo determinações do contratante, a retratar o ocorrido da forma como se deu. Além disso, nos casos citados, em vista do lapso de tempo entre o fato e a sua representação pictórica, registros de imagens eram inexistentes na época; os relatos testemunhais, raros e falhos. Pedro Américo sequer tinha nascido em 1822. Tanto assim que o próprio reconheceu a impossibilidade de estabelecer uma relação entre o que o quadro mostra e o episódio histórico, enfatizando: “A realidade inspira e não escraviza o pintor”.
Somente muito tempo depois, graças a novas pesquisas, foi possível conhecer das diferenças significativas entre o quadro e o fato. Primeiro, não se usavam cavalos para vencer o trajeto da Serra do Mar, ainda mais com tempo chuvoso, mas muares, animais muito mais resistentes. D. Pedro montava uma “mula baia gateada”. Depois, nem os uniformes eram tão galantes, nem a comitiva tão grande – no máximo 14 pessoas. Em síntese, para perpetuar e tornar o episódio grandioso, o pintor criou toda uma situação. Não poderia ser diferente. Afinal, como destaca o historiador José Murilo de Carvalho, no artigo “Os Esplendores da Imortalidade”: “…o augusto moço não poderia ser representado com os traços fisionômicos de quem sofria as incômodas cólicas de uma diarreia…” Imprima-se a lenda.
Alcir Santos
Aposentado – [email protected]




