
Partamos da premissa de que as mulheres são naturalmente inclinadas para a maternidade. Esta condição inata tanto pode advir de fatores biológicos como sociais; ou dos dois. Mas nem todas estariam propensas à maternidade. Afinal, cada pessoa é uma individualidade. Então, a regra que é ser mãe; a exceção é não querer ser. Não cabe discutir, é direito personalíssimo de cada uma. A questão que nos propomos abordar é mais complicada porque, decididamente, aborto não é coisa que se pratique por prazer. Não e Não! De modo geral, essa questão é vista sob a ótica da religião, da saúde pública e do direito.
Muitas vezes são eivadas de paixões e preconceitos. Assim, um assunto de tamanha importância acaba sendo tisnado pelo radicalismo e pela emoção, sabidamente péssimos conselheiros. Pior: esquecem de considerar o mais importante, a dor da mulher que se submete – ou é submetida – a um aborto. Esquecem também das mortes, sem contar das que não podem pagar por uma intervenção com o mínimo de cuidados.
No tocante, Carta a um Menino que Nunca Nasceu, Oriana Falacci, narra um fato da sua vida. Engravidou por acaso e foi aconselhada a abortar, mas decidiu não fazê-lo. Acabou tendo um aborto espontâneo. Do texto de Oriana a par das informações de que dispomos, dá para garantir que raramente alguma mulher sai incólume de um aborto. E não poderia, tamanha sua violência e brutalidade. Ninguém aborta porque quer. O aborto, como o suicídio, é uma contingência, um momento ao qual ninguém está imune. A decisão é tomada sob a pressão de uma conjunção de fatores que acabam por fragilizar a mulher, tornando-a indefesa. Uma decisão pessoal, é verdade, mas viciada pelo desespero e pela dor das circunstâncias.
A pretendida criminalização do aborto é um crime inominável. Um desrespeito à dignidade da mulher. Importa, isto sim, respeitar a dor da mulher. Atirar pedras e pespegar rótulos é muito fácil. Difícil é tentar fazer um processo de empatia para entender como uma pessoa busca solução tão extremada e violenta. Não é uma questão de apoiar ou não apoiar. É mais profundo. Como não se pode pretender impedir que ocorra, resta-nos ser solidários. Isto não quer dizer apenas abraçar, dar o ombro e chorar junto, mas compreender e ajudar para que possam se reerguer e tocar a vida, embora guardem para sempre uma profunda dor.
Alcir Santos




