
Por Alcir Santos
Por mais que tenha me esforçado, pesquisando, inquirindo os mais velhos, não consegui, ainda, descobrir as origens dos pantagruélicos banquetes em família, na Sexta-Feira da Paixão. Vale destacar que essa tradição é bem mais forte no litoral da Bahia.
É impressionante! Independente de classe social, a comilança da sexta-feira é sagrada. A família se reúne em torno de uma mesa forrada de pratos tradicionais da culinária baiana, feitos à base de leite de coco, azeite de dendê, frutos do mar, quiabos, feijão mulatinho e o onipresente bacalhau. Moquecas, feijão de coco, caruru, vatapá, arroz e, às vezes, efó. Para completar, vinho tinto. E tanto faz que seja suave, como os tradicionalíssimos D. Bosco, Sangue de Boi e Capelinha, vendidos em garrafões; como os secos, ao gosto de paladares mais refinados. Não importa.
O detalhe sociológico (?), é que, diferente do jantar da noite de Natal, conhecido nas emergências da vida pelos inúmeros casos de agressões e brigas, no almoço da sexta-feira santa são raros os casos de desentendimentos entre os comensais. Se alguém vai parar na emergência é por conta dos excessos à mesa.
Pois bem. Continuo sem saber a origem disso, até porque na Península Ibérica não vi vestígios dessa comilança, a despeito das celebrações que costumam fazer. No Brasil há uma tradição parecida, no Pará, com o tradicional almoço do Círio de Nazaré, com sua tradicional peça de resistência, o “pato no tucupi”.
Agora, deixemos de lado a comilança da sexta-feira santa e assemos a tratar de uma outra tradição tipicamente baiana, de aspectos um tanto quanto fesceninos. Falo do “baú/balaio fechado”. Desconheço se praticada noutros estados. Para dizer a verdade, nem sei se ainda existe já que minhas lembranças vêm da juventude em Ilhéus, coisa de cinquenta e muitos anos atrás. Esta tem boas e saborosas referências históricas. Aos fatos. Mandava a tradição religiosa, de matriz católica, que as “primas” se abstivessem de práticas sexuais a partir da meia noite de quinta para sexta e até a meia noite seguinte. Síntese, nada de sexo na Sexta-Feira da Paixão.
Desse fato decorria uma prática deveras curiosa. À medida que se aproximava o fim da sexta-feira, os homens começavam a chegar aos “castelos” para fazer hora, na expectativa de arrumar companhia para abrir o “balaio/baú”. Sem dúvida, uma festa pagã imbricada com a religiosa. Bem, existem várias referências históricas e ficcionais da questão de fechar o “balaio”. Nenhuma, como a nossa, de caráter religioso. Jorge Amado, por exemplo, em “Tereza Batista” (1972), narra uma greve do “balaio fechado” decretada pelas damas da noite em represália a ameaça de transferi-las da Barroquinha para a Ladeira do Bacalhau, às meninas não faltou o apoio irrestrito de Exu, ameaçando, com seus poderes, possíveis fura-greves. Talvez por mera coincidência, a greve foi deflagrada numa sexta-feira da Paixão. Talvez… Fato é que, segundo Jorge, elas acabaram vitoriosas.
Ocorre que essa não é uma criação nossa. Pelo contrário. Eximir-se de sexo para atingir objetivos diversos não é, em absoluto, novidade. A primeira notícia que se tem dessa prática no mundo ocidental data do século a.C., com a comédia grega Lisístrata, de Aristófanes. Cansadas da Guerra do Peloponeso, que já durava vinte anos, as mulheres de Atenas, Esparta, Beócia e Corinto, chefiadas por Lisístrata, (do grego: que dissolve exércitos), resolveram recusar sexo aos maridos que não resistiram e concluíram um tratado de paz, pondo fim ao embate.
Outros registros dignos de nota. Em 2011 os partidos políticos da Bélgica entraram num impasse e o país ficou um tempo sem formar um governo. Uma senhora propôs às mulheres dos negociadores que fizessem greve de sexo como forma de pressioná-los a encontrar uma decisão, saindo do impasse. Logo depois estava formado o governo. Na Colômbia há pelo menos dois desses movimentos, intitulados de “greve das pernas cruzadas”. O primeiro em 2006, esposas de membros de algumas gangues do Departamento de Pereira resolveram privá-los de sexo como de obrigá-los a deixar as armas. Posteriormente as mulheres da cidade de Barbacoas, cansadas das promessas não cumpridas do governo, especialmente de estradas que permitissem trânsito e acesso, cruzaram as pernas.
Na Libéria, em 2002, Leymah Gbowee liderou uma greve de sexo, suprapartidária e suprareligiosa para forçar o fim da guerra civil que arrasava o país. No final o temido Charles Taylor foi deposto.
Portanto a tradição baiana do “balaio fechado” (ainda persiste?) acaba sendo uma forma pouco ortodoxa usada pelas mulheres como forma de alcançar determinados resultados, prova incontestável da sabedoria delas, reconhecendo seu poder e forçando soluções. Resta somente uma pergunta, como funcionaria o “balaio fechado” no âmbito restrito da família. Sinceramente, não sei se é o caso de afirmar o “quem souber morre”…




