A vida do taxista Luiz Gonzaga do Rosário, mais conhecido entre os colegas da Rodotáxi pelo numeral 060, é marcada por lutas, erros, quedas e recomeços. Hoje, aos 72 anos, o ex-taxista enfrenta seu capítulo mais difícil: internado no Hospital Clériston Andrade, em Feira de Santana, interior da Bahia, em estado irreversível de saúde, ele recebe apenas cuidados paliativos. Sua filha, Cristiane Neiva do Rosário, junto com as irmãs Ana e Andréia, decidiu tornar pública essa história em uma carta aberta, na tentativa de sensibilizar a categoria a ajudá-lo neste momento delicado.
Infância de abandono e juventude de luta
Nascido em 25 de abril de 1952, no interior de Sergipe, Luiz Gonzaga foi abandonado pela mãe ainda criança e conheceu cedo a dor da rejeição. Viveu um tempo nas ruas até ser acolhido por Dona Ana (em memória) e, depois, por sua filha Donana (em memória), que o tratou como filho. Aos 19 anos, migrou para Salvador em busca de melhores oportunidades.
Os primeiros passos como taxista
Na capital, teve sua primeira chance como taxista, alugando veículos para trabalhar. Porém, após um acidente, ficou desempregado. Foi nesse período que conheceu Dinha, sua futura esposa e mãe de suas três filhas, que lhe deu apoio nos momentos mais difíceis.

Aos poucos, Luiz foi se reerguendo. Trabalhou na plantação de hortaliças e como motorista de caminhão para o empresário Manoel (em memória). Mais tarde, atuou na Transportadora Atlas, também localizada na Av. Barros Reis. Com esforço e economia, em 1991 conseguiu realizar um grande sonho: comprou seu primeiro táxi, o A-0337, ingressando na cooperativa Rodotáxi, onde ficou conhecido como “Sessenta” ou “Meia Zero”.

Conquistas e quedas
Apesar das conquistas, Luiz também deixou marcas de dor na família. Sua esposa descobriu que ele tinha outros filhos fora do casamento, e, mais tarde, outra relação extraconjugal que gerou mais um filho e levou à separação definitiva. A partir daí, sua vida entrou em declínio.
Ele vendeu o táxi e a placa, tentou trabalhar novamente com caminhões, mas perdeu o veículo por falta de pagamento. Tentou recomeçar com pequenos negócios – vendendo pinhas, milho e até água de coco –, mas os reveses se repetiram, em grande parte por causa da bebida e da vida desregrada. Em um momento de desespero, chegou a tentar suicídio ingerindo veneno de rato, sendo salvo por um colega da Rodotáxi, Val (075), que o levou ao hospital.

Prisões, conflitos e novas tentativas
Nos anos seguintes, enfrentou problemas com a Justiça. Em 2006, após tentar agredir uma companheira, acabou preso em Berimbau e levado para a delegacia de Santo Amaro. A própria filha, Cristiane, conseguiu sua liberação, mas na porta da delegacia foi ameaçada por ele, o que gerou nova prisão.
Apesar das dificuldades, as filhas nunca deixaram de estender a mão, pagando contas, aluguel e até cuidando de sua alimentação. Nos últimos anos, Luiz se envolveu em um relacionamento conturbado, que gerou mais um filho. Quando a companheira o deixou, passou a viver em condições insalubres, praticamente como mendigo.
Internações e estado atual
Há cerca de um ano e meio, diante do risco de abandono de idoso, Cristiane decidiu interná-lo compulsoriamente em um centro de recuperação em Camaçari. Após denúncias de maus-tratos, o transferiu para um lar de idosos em Salvador. Com a saúde debilitada, enfrentou infecções urinárias, desidratação severa e fraqueza progressiva.
Desde julho, seu quadro se agravou. Foi internado na UPA de Brotas, transferido para o Hospital Manoel Victorino e, posteriormente, levado pela família a Feira de Santana, onde permanece no Hospital Clériston Andrade. Segundo os médicos, não há cura: apenas cuidados paliativos para garantir dignidade nos seus últimos dias.

Apelo da família
Mesmo após tantos erros e escolhas que machucaram a família, Cristiane e suas irmãs mantêm um compromisso: cuidar do pai até o fim, para que ele tenha uma morte digna. Elas se revezam no hospital, contratam cuidadoras e enfrentam grandes dificuldades financeiras para manter a assistência necessária.
Diante disso, as filhas fazem um apelo à categoria de taxistas: que se solidarizem com o ex-colega de praça, o “Meia Zero”, ajudando com qualquer valor.
Chave Pix para doações: 75 99996-0610 (Cristiane Neiva do Rosário)
“Sabemos que ele errou muito, mas também sabemos que ninguém merece partir sem dignidade. Pedimos o apoio dos colegas taxistas nesse momento tão difícil”, escreveu Cristiane em sua carta aberta.




