Da Redação do Ei, Táxi – A Fenearte é reconhecida como a maior feira de artesanato da América Latina. Todos os anos, milhares de visitantes passam pelo Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda, entre turistas, famílias, idosos, pessoas com deficiência e visitantes vindos de diversos estados do país.
Justamente por isso, seria natural imaginar que a logística de transporte fosse planejada para facilitar a chegada e, principalmente, a saída dessas pessoas. Mas aconteceu exatamente o contrário.
Após decisão da direção do Centro de Convenções de Pernambuco (Cecon-PE), os taxistas ficaram proibidos de formar fila na área interna do equipamento durante a realização da feira. A justificativa apresentada foi de que apenas os pontos externos atenderiam à demanda, enquanto o acesso interno ficaria restrito ao embarque e desembarque, com tolerância de apenas dez minutos.
Na teoria, parece organizado. Na prática, revelou-se um enorme equívoco.
Quem paga a conta é o visitante
O Portal Ei Táxi acompanhou, no último domingo (12), o drama vivido por uma família que deixava a Fenearte. Entre eles estava um idoso cadeirante.
Sem encontrar táxis próximos à saída da feira, a família precisou deslocar-se até a parte externa do Centro de Convenções para conseguir um veículo. No percurso, enfrentou dificuldades de locomoção, carregando compras e auxiliando o idoso.
Como consequência da demora, o taxista que entrou no estacionamento para buscar os passageiros ainda precisou transferir o pagamento para os passageiros pela permanência superior aos dez minutos.
O prejuízo financeiro, nesse caso, é o menor dos problemas. O maior prejuízo foi à dignidade. A visitante resumiu bem o sentimento.
Segundo ela, deixou de comprar produtos por receio da dificuldade que enfrentaria para sair do evento. Em outras palavras, a logística do transporte interferiu diretamente na experiência do público e até mesmo no potencial de consumo dentro da própria feira.
“A gente passou um transtorno muito grande para pegar um táxi. Antes, a gente pegava um táxi lá dentro do Centro de Convenções, e comprávamos tranquilamente e nem tínhamos hora pra sair. Eu não pude comprar quase nada, porque fiquei preocupada com a nossa locomoção. Estou aqui com uma pessoa de cadeiras de rodas (o idoso) e ainda estou com a minha filha e minha neta. Tive que ir lá fora pra chamar um táxi, e ainda tive que pagar no estacionamento, porque passou dos 10 minutos pra gente sair. Não é todo mundo que tem carro. Um absurdo isso que fizeram. Não pudemos aproveitar nada”, relatou a visitante que seguia de táxi para o bairro de Casa Forte, na zona norte da capital pernambucana.
Quem perde?
O artesão. O expositor. O visitante. E a própria Fenearte.
“Tivemos um transtorno para embarcar o idoso que tem dificuldades de locomoção. Como nós taxistas fomos proibidos de ficar na área interna do Centro de Convenções, essa senhora teve que vir aqui fora para chamar um táxi. Entrei para ir buscar o idoso, a filha e a neta dela. Ainda pagamos um valor no estacionamento, porque demorou mais de 10 minutos lá dentro”, afirmou o taxista responsável por levar a família para casa.
O serviço de táxi existe para atender a população, não aos taxistas
Durante toda essa discussão, um argumento curioso passou a circular entre alguns profissionais.
Segundo essa narrativa, a culpa pelo atual cenário seria dos taxistas que denunciaram ao Portal Ei Táxi a possibilidade de cobrança de taxas para trabalhar no estacionamento interno.
Essa inversão de valores merece ser enfrentada.
A denúncia não criou o problema. A denúncia revelou o problema.
Foi justamente após a repercussão das reportagens que ficou esclarecido que ninguém estava autorizado pelo Centro de Convenções a cobrar qualquer valor além da tarifa oficial de estacionamento. Ou seja, a denúncia cumpriu exatamente sua função social.
Se existia dúvida sobre eventual cobrança indevida, ela precisava ser esclarecida. Se havia informações desencontradas, elas precisavam vir à tona. Transferir essa responsabilidade ao denunciante significa aceitar que irregularidades ou dúvidas jamais possam ser divulgadas por medo das consequências.
Isso não fortalece a categoria. Isso fortalece o silêncio.
O verdadeiro debate nunca foi estacionamento
Desde o início, o Portal Ei Táxi sustentou que o centro da discussão não era o estacionamento. Era a logística.
É preciso compreender algo muito simples. O táxi não é um benefício concedido ao taxista. É um serviço privado de utilidade pública destinado à população.
Quando se impede que exista uma fila organizada próxima à saída principal de um evento desse porte, quem sofre não é apenas o profissional. Quem sofre é o cidadão.
Especialmente:
- idosos;
- pessoas com deficiência;
- gestantes;
- famílias com crianças;
- turistas que desconhecem o local;
- visitantes carregando compras.
A impressão transmitida é de que o planejamento foi elaborado olhando para o fluxo de veículos, mas esquecendo completamente das pessoas.
E onde está o Ministério Público?
Outro ponto que chama atenção é a postura do Ministério Público de Pernambuco.
O Portal Ei Táxi procurou o órgão para tratar do assunto. A resposta foi de que nenhuma providência poderia ser adotada porque não existia denúncia formal.
Fica uma pergunta inevitável.
É realmente esse o papel esperado de um órgão cuja missão constitucional inclui justamente a defesa dos interesses sociais e coletivos?
Quando um veículo de comunicação apresenta uma situação que afeta milhares de pessoas, será que a única resposta possível é aguardar que alguém protocole formalmente uma denúncia?
Ou caberia uma atuação proativa, buscando reunir os envolvidos e construir uma solução antes que os problemas se concretizassem?
Infelizmente, parece ter prevalecido a burocracia humana.
Salvador mostra que é possível fazer diferente
O curioso é que esse problema sequer precisaria existir. Basta olhar para outros grandes centros de eventos.
No Centro de Convenções de Salvador, por exemplo, a operação ocorre de maneira completamente diferente. As cooperativas autorizadas mantêm filas organizadas em frente aos acessos principais do equipamento. Além disso, qualquer táxi regularmente licenciado no município pode acessar a área para embarque e desembarque de passageiros.
Não há necessidade de transformar um serviço essencial em obstáculo. A logística é pensada para facilitar o deslocamento do visitante, e não para dificultá-lo. É exatamente esse tipo de planejamento que se espera de um evento internacional como a Fenearte.
Ainda há tempo para corrigir
A feira segue até o próximo dia 19. Portanto, ainda existe tempo para que a organização da Fenearte, a direção do Centro de Convenções e a Prefeitura de Olinda revejam esse modelo operacional.
Criar uma área organizada para fila de táxis na pista em frente ao principal acesso do evento não representa privilégio para a categoria. Representa respeito ao visitante. Representa acessibilidade. Representa mobilidade. Representa planejamento.
Enquanto isso não acontece, permanece a sensação de que um dos maiores eventos culturais do Brasil conseguiu falhar justamente em um detalhe que faz toda a diferença para quem frequenta a feira: a forma de voltar para casa.
No vídeo abaixo, veja o relato dos visitantes, do taxista que realizou o atendimento e entenda por que essa discussão vai muito além da criação de uma simples fila de táxis.
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