Uma pesquisa científica que chamou a atenção de pesquisadores e também da categoria dos taxistas pode ajudar a explicar uma característica peculiar da profissão: o trabalho constante de localização, navegação e tomada de decisões sobre trajetos pode estar relacionado a alterações e estímulos em regiões do cérebro envolvidas com memória e orientação espacial.
O assunto foi repercutido pelo The Conversation, no artigo “Taxi drivers rarely die of Alzheimer’s – how complex mental maps and spatial reasoning protect your brain“, que destaca os resultados de um estudo publicado em 2024 no BMJ sobre a mortalidade por doença de Alzheimer entre diferentes profissões.
A pesquisa analisou registros de óbitos de quase 9 milhões de pessoas nos Estados Unidos, referentes ao período de janeiro de 2020 a dezembro de 2022. Entre 443 ocupações avaliadas, taxistas e motoristas de ambulância apresentaram as menores proporções de mortes atribuídas ao Alzheimer. (PubMed Central (PMC))
O estudo encontrou Alzheimer registrado como causa da morte em aproximadamente 1,03% dos taxistas, contra 1,69% na população geral analisada após os ajustes realizados pelos pesquisadores. Entre os motoristas de ambulância, a proporção ajustada foi de 0,91%. (EurekaAlert!)
Não é simplesmente dirigir
Um dos pontos mais interessantes da pesquisa é que o resultado não apareceu de maneira semelhante em todas as profissões relacionadas à condução de veículos.
Motoristas de ônibus e pilotos de avião, por exemplo, não apresentaram a mesma associação. Uma possível explicação levantada pelos pesquisadores é que essas atividades normalmente dependem mais de rotas previamente estabelecidas.
Já o taxista precisa tomar decisões constantemente: identificar onde está, interpretar o ambiente, escolher caminhos, adaptar o percurso às condições do trânsito, memorizar referências e atualizar mentalmente a relação entre diferentes locais da cidade.
É justamente esse processo contínuo de navegação espacial em tempo real que pode estar relacionado ao resultado encontrado.
O artigo publicado pelo The Conversation chama atenção para essa diferença e questiona se a exigência constante de construção e atualização de “mapas mentais” poderia estimular determinadas estruturas cerebrais.
O hipocampo entra nessa história
A região do cérebro que mais chama atenção nesse contexto é o hipocampo, estrutura relacionada à memória e à navegação espacial.
O hipocampo também está entre as primeiras regiões cerebrais afetadas pela doença de Alzheimer. Alterações na capacidade de orientação espacial podem aparecer entre os sinais iniciais da doença, algumas vezes antes de problemas de memória mais evidentes.
Por isso, os pesquisadores levantam a hipótese de que uma atividade profissional que exige navegação intensa e frequente possa estimular justamente circuitos envolvidos nessas funções.
Mas há uma ressalva importante: o estudo não demonstra que trabalhar como taxista previne Alzheimer. Trata-se de uma associação observada em registros de óbito. Os próprios resultados não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito.
Os taxistas de Londres já haviam chamado a atenção da ciência
A relação entre a profissão de taxista e o funcionamento do cérebro não é exatamente nova.
Em um estudo histórico realizado no ano 2000, pesquisadores analisaram os cérebros de taxistas londrinos e encontraram diferenças mensuráveis no hipocampo em comparação com pessoas que não exerciam a profissão.
Para obter a licença, os famosos taxistas de Londres precisam passar pelo treinamento conhecido como “The Knowledge/O Conhecimento”, no qual memorizam mais de 25 mil ruas em uma área de aproximadamente 9,6 quilômetros ao redor de Charing Cross (cruzamento icônico e considerado o marco zero no centro de Londres, localizado na Cidade de Westminster). O processo pode levar de três a quatro anos.
Os pesquisadores encontraram maior volume de massa cinzenta no hipocampo posterior dos taxistas, região associada ao armazenamento de mapas espaciais. O volume também estava relacionado à experiência profissional: quanto maior o tempo de atuação, maior tendia a ser essa região.
Esse resultado foi interpretado como uma evidência de que a exigência contínua de navegação poderia produzir mudanças mensuráveis no cérebro adulto.
E o que isso significa para o taxista brasileiro?
A pesquisa não permite afirmar que o taxista brasileiro terá proteção contra o Alzheimer simplesmente por exercer a profissão.
As condições de trabalho também são diferentes. Os taxistas londrinos estudados no trabalho de 2000, por exemplo, enfrentavam um processo específico de memorização da cidade que não necessariamente corresponde à realidade de outras localidades.
Ainda assim, o estudo chama atenção para algo que faz parte da rotina de muitos profissionais: pensar espacialmente durante praticamente toda a jornada de trabalho.
Mesmo com aplicativos de navegação disponíveis atualmente, o taxista continua precisando interpretar o trânsito, avaliar alternativas, reconhecer ruas, identificar pontos de referência e decidir se determinada rota é realmente a melhor para aquela corrida.
Uma profissão que exige memória e orientação
Para quem trabalha diariamente transportando passageiros, conhecer a cidade vai muito além de simplesmente saber o nome das ruas.
É necessário relacionar bairros, avenidas, atalhos, pontos de referência, horários de maior congestionamento e diferentes possibilidades de trajeto. Quando uma rua está interditada ou o trânsito muda repentinamente, o profissional precisa reorganizar rapidamente o caminho.
Essa atividade se aproxima do tipo de raciocínio espacial que os pesquisadores acreditam estar por trás da associação encontrada no estudo.
Pesquisas citadas pelo The Conversation também apontam que ambientes urbanos mais complexos, com muitas interseções, pontos de referência e alternativas de trajeto, estão associados a diferenças em regiões cerebrais ligadas à navegação espacial. No entanto, ainda permanece em aberto se o raciocínio espacial realizado por meio de mapas digitais produz exatamente os mesmos efeitos da navegação em uma cidade real.
Um resultado promissor, mas que ainda precisa de investigação
O estudo publicado no BMJ abre uma possibilidade interessante para a ciência: entender se atividades que exigem navegação e raciocínio espacial de forma contínua podem contribuir para a chamada reserva cognitiva, capacidade que permite ao cérebro manter seu funcionamento mesmo diante de alterações relacionadas ao envelhecimento ou a doenças.
Por enquanto, entretanto, os resultados devem ser interpretados com cautela. A pesquisa analisou registros de óbitos e encontrou uma associação entre determinadas profissões e a proporção de mortes atribuídas ao Alzheimer. Ela não prova que a atividade de taxista seja responsável pela menor proporção observada.
Ainda assim, para uma categoria que passa boa parte da vida “lendo” a cidade, construindo mapas mentais e tomando decisões sobre caminhos, o resultado certamente desperta curiosidade.
E talvez exista uma maneira simples de resumir a descoberta: enquanto leva passageiros até seus destinos, o taxista também pode estar exercitando diariamente uma das funções mais importantes do cérebro — a capacidade de se orientar no espaço.
Assista ao vídeo
Para complementar esta matéria, o Portal Ei Táxi disponibilizará um vídeo sobre o estudo e suas descobertas.
Recomendamos que os leitores ativem a opção de legenda dublada no vídeo, caso esteja disponível, para acompanhar melhor o conteúdo.
Fonte e créditos: The Conversation, com base em estudo publicado no BMJ.




