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Maria Luiza, a pioneira em central de rádio táxi do Norte Nordeste, deixa a TeleTáxi Salvador

Dona Maria Luiza, Histórias de Taxista na Bahia
"Cumpri a minha missão e deixo a TeleTáxi seguindo em frente" - Foto: Helton Carlucho/Ei Táxi

Por Adriano Rios

Maria Luiza Karam Driesel (80 anos), natural de Curitiba, radicada na Boa Terra há 52 anos e fundadora da TeleTáxi Salvador. Para muitos, Dona Maria Luiza, a mulher que revolucionou o sistema de táxi na Bahia deixa o segmento após 40 anos à frente da primeira rádio táxi do Norte Nordeste.

Num bate-papo descontraído, com momentos de muita emoção, tive a oportunidade de mais uma vez poder aprender com Dona Maria Luiza, uma mulher à frente do seu tempo.

Neste momento de despedida desta mulher empreendedora, inspiradora e de admirável força, que deixa um extraordinário legado para uma profissão, não poderia deixar de mencionar a honra que tive em ter conhecido e convivido com ela, uma parceira que sempre apoiou o Ei Táxi. Muito obrigado, Dona Maria Luiza! Que Deus lhe abençoe!

Ei Táxi: Vamos voltar ao começo da TeleTáxi?

Maria Luiza: Cheguei aqui em 1968, junto com meu marido, que se mudou para o estado para trabalhar na construção da Usina Siderúrgica da Bahia (Usiba), do grupo Gerdau. Após ficar viúva, em 1980, voltei ao Paraná pra conhecer a Rádio Táxi de Curitiba, que tinha a mesma tecnologia que eu tinha visto nos Estados Unidos da América (EUA). Comprei o know-how, ele veio, instalou, foi embora e aí tudo começou. No começo foi muito difícil. Há 40 anos, eles [os taxistas] não acreditavam numa mulher, por isso, no início eu coloquei o meu irmão à frente. Ele não ficou muito tempo aqui em Salvador e eu logo assumi. Os taxistas não acreditavam no sistema de rádio, porque não conheciam, eu tive que investir nos rádios pra eles [financiar]. Até pegar, demorou mais de 4 anos. Lembro-me de um dia, uma situação com uma cliente que sempre pegava o nosso táxi e estava acostumada com um tempo alto de espera. Nesse dia, ela foi surpreendida com a rapidez que o táxi chegou em sua porta e ligou pra nossa central, dizendo que ninguém tinha avisado que o carro chegaria tão rápido [risos]. Assim que ela pediu, nós anunciamos a corrida pela central e um taxista que estava por perto se deslocou, chegando mais rápido do que o habitual. A comunicação era difícil, porque os rádios com tecnologia PX (Serviço Rádio do Cidadão) davam muita interferência. Depois que passou para VHF (frequências muito altas) melhorou. Nós fomos a primeira rádio a implantar computador, antes as corridas eram anotadas no papel, mesmo com receio da nossa equipe foi um sucesso. Os passageiros ficavam surpresos ao perceberem que as nossas funcionárias já sabiam todas as informações deles, ganhávamos em produtividade e encantávamos os clientes.

ET: A senhora sempre foi conhecida pelos motoristas como uma mulher forte, “parada dura”. O que a senhora achava disso?

ML: Eu achava bom, porque eles me respeitavam. Sempre me tratavam como senhora, era uma espécie de barreira que eu fazia questão para que o respeito fosse mantido, tinha que ser assim. Era um ambiente muito machista, tive que ser “duro na queda” no início [risos], mas depois eles foram aceitando.

ET: Ao longo desses 40 anos à frente de uma rádio táxi, o que a senhora identifica como o maior aprendizado?

ML: Eu gostei imensamente, principalmente por ter aprendido que o motorista de táxi é muito humano. Quando a gente pede uma colaboração para algum colega, eles dão. O defeito deles é a dispersão no momento decisivo, falta mais união sobre projetos deles, apesar de que no início eles eram mais unidos.

ET: A senhora teve ajuda para ‘tocar’ a TeleTáxi?

ML: Ah, foram muitos! O 055, Vital, ajudou muito. Jorge também. Gilberto, que era motorista antigamente e passou depois para a administração. Não posso deixar de falar de Cândido, Adolfo e Rose, eles foram muito bons pra mim. Cândido me emprestou um dinheiro e Adolfo, que é seu irmão, veio para trabalhar comigo, mas ele não se adaptou. Muitos me ajudaram! Posso falar também que fora da Tele, tive ajuda de muitos como o Marcos e Maia da Elitte Táxi, que têm capacidade, gosto muito deles.

ET: E a concorrência?

ML: Ah, eu torcia pra ter um concorrente, porque tudo de ruim, era culpa da TeleTáxi [risos]! Daí veio a Chame Táxi e a gente dividiu [risos]. Daí foram ‘mil maravilhas’, porque a TeleTáxi passou a ser boa [risos]. Quando eles apareceram, eu dei um ponto de apoio pra que eles usassem minha central, visse se a antena estava chegando bem ou não. Graças a Deus veio a concorrência! Eu sempre levei uma concorrência sadia pra todas elas, porque sempre achei que há lugar no sol pra todo mundo.

ET: E o taxista no meio disso?

ML: Ah, no início, o nosso motorista tinha orgulho de ser TeleTáxi. Eles chegavam a fazer uma ‘guerra’ pra quem não era, isso eu não gostava. Os ânimos ficaram um pouco acirrados. Lembro de quando a gente começou, a prefeitura instalou telefones em alguns pontos de táxis de Salvador para que o cliente ligasse direto pro ponto. Alguns dos nossos motoristas passavam trote pro ponto e o taxista saía em busca da corrida que não existia, deixando a área livre para os nossos carros. Quando os taxistas passavam por eles, davam risada do pobre coitado, que estava indo pra uma corrida falsa. Eu não gostava disso. Isso foi um dos motivos que fizeram essa tentativa do telefone nos pontos não dar certo.

ET: A senhora está se desligando do sistema. A senhora ainda acredita no táxi?

ML: Acredito! Em Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde a Uber tem mais tempo, você vê os táxis na rua. Eu ainda acredito no táxi, mas os motoristas precisam abrir a mente. Temos motoristas que mesmo com essa concorrência conseguem comprar excelentes carros, mas tem que ser comprometido com a profissão como temos aqui o Coelho, um taxista que não mede esforços, onde tem corrida ele vai. Muitos conseguem ganhar dinheiro, porque correm atrás das corridas. Têm que mudar a mentalidade. Contratei o Leonardo da Coopertáxi de Belo Horizonte-MG, que veio aqui mostrar como está dando certo lá, porque eles concedem 30%, mas o pessoal aqui não quer aceitar.

ET: O que o taxista precisa fazer pra vencer a concorrência dos aplicativos?

ML: Tudo está evoluindo, os taxistas precisam evoluir também, fazer um bom serviço, manter o uniforme e o carro limpos, com álcool gel e tudo mais. Tentei implantar a TeleTáxi Class, que seria um serviço diferenciado, mas somente quinze motoristas aderiram. Eles começaram a brigar entre eles, diziam que a gente privilegiava o motorista Class. Foi uma pena, porque esse projeto poderia estar aí funcionando. Hoje, a TeleTáxi concede 20% de desconto para o passageiro, tinha que ser 30%. O motorista aceita dar esse desconto através da 99, mas não aceita através da Tele.

ET: O que representou a pandemia para a Tele?

ML: A pandemia me pegou de ‘calça curta’. Eu já enfrentei outras crises que o Brasil atravessou, mas eu tinha dinheiro no bolso. Agora não, eu já estava trabalhando no vermelho por causa da Uber. Então, eu não tinha capital pra ‘segurar a peteca’. Em março, eu faturei somente R$ 4 mil, porque os motoristas não tinham como pagar a mensalidade da rádio. Só a folha era R$ 24 mil. Já pensou nisso? Não tinha como segurar, por isso eu tive que vender.

ET: A senhora deixa dívidas com motoristas?

ML: Não! Não ficarei devendo a nenhum motorista nem a funcionários. Fizemos um acordo com todos os quinze funcionários e eles ainda serão contratados pela nova administração. Somente Gilberto não será aproveitado, porque eles já têm um financeiro. Também vendi alguns bens pra assumir isso. Tenho algumas dívidas particulares, que vou pagando aos poucos.

ET: Quem assumirá a TeleTáxi?

ML: É um grupo empresarial daqui de Salvador, um grupo muito bom. Não eram do sistema de táxi. Vai ser muito bom para os nossos funcionários e para os taxistas.

ET: Qual é a mensagem que a senhora deixa?

ML: Gostaria muito que os taxistas entendessem que precisam aceitar as mudanças, foi assim comigo. Agora, é preciso evoluir mais. O taxista trabalha anos e anos com isso, então precisa se reinventar. Não dá mais pra recusar corrida curta. Tem que tratar bem o cliente, isso é fundamental. Eles têm todas as armas pra vencer.

ET: O que representou esse ciclo em sua vida?

ML: Foi uma experiência muito boa pra mim. Conheci muitos bons seres humanos. Por anos, tivemos 350 motoristas, soube lidar com eles e me sinto muito querida por todos. Recebi muitas ligações deles e de meus funcionários, inclusive os antigos [nesse momento, Dona Maria Luiza não resistiu e chorou de emoção] ligaram me dando uma palavra de apoio, isso é muito gratificante, porque o que eu plantei, eu colhi. Graças a Deus cumpri a minha missão. Fui a pioneira do Norte Nordeste e deixo a TeleTáxi seguindo em frente.

ET: O que a senhora vai fazer daqui pra frente?

ML: Vou continuar morando aqui. Vou pra Curitiba em fevereiro, mas depois eu volto. Estou fazendo um programa online para reorganização cerebral, a lei da atração, eu gosto muito disso. Também tenho dedicado meu tempo para leituras dos Salmos, que está me dando mais equilíbrio.

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Uma resposta

  1. Eu sou 068, desde 1983, qdo ingressei no sistema comprei meu passaporte, JOIA, que deveria ser devolvido ao motorista qdo do seu desligamento, o Sr, GILBERTO, talvez com o aval de D. Maria Luiza, diz que esse vlr CADUCOU, ora só na cabeça de um ser como Sr. Gilberto, que aliás, gerenciou a TT não sei como ficou tanto tempo….
    A D. Maria desconhece esse direito, afinal…. Reis antigo carro 068!

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